Tipos de crenças

Hoje eu comprei e comecei a ler um livro que promete. A fé na era do ceticismo – como a razão explica as crenças divinas , do pastor estadun...

livroHoje eu comprei e comecei a ler um livro que promete. A fé na era do ceticismo – como a razão explica as crenças divinas, do pastor estadunidense Timothy Keller. Sem pretender renegar a “era” em que vivo, eu já estou duvidando plenamente que o pastor consiga a façanha de usar o racionalismo para explicar a fé em coisas sobrenaturais, mas desde já, para ser honesto, eu tenho que dizer que o autor tenta – eu disse, tenta – ser bastante imparcial, fazendo críticas tanto aos céticos quanto aos religiosos a respeito dos confrontos entre ambos (o que já é um mérito). O problema é que, enquanto do lado cristão ele os aconselha a admitir e buscar respostas para as dúvidas que a fé suscita como uma forma de “fornecer fundamentos para a sua crença aos céticos”, para o lado descrente seu conselho soa mais como reprimenda acusatória: “assim como os crentes devem aprender a buscar os motivos por trás da própria fé, os céticos precisam aprender a buscar um tipo de fé escondido em seu raciocínio”.

Esse é um tipo de erro que os crentes costumam cometer bastante, quando dizem, por exemplo “é preciso ter fé para ser ateu”, ou “ateísmo é um tipo de crença!”. Timothy Keller usa uma lógica muito frágil em seu livro para apoiar essa conclusão, e apesar de estar apenas no começo da leitura, acho que já vale a pena comentar esse “conselho”.

Que tipo de crença, cara pálida?

Segundo Keller, todas as dúvidas, por mais céticas que pareçam, na verdade são “um conjunto de crenças alternativas”. Ele afirma como base a este argumento que não é possível alguém ter dúvida sobre a Crença A, a não ser a partir de uma posição de fé na Crença B. A seguir, escolhe os piores exemplos para corroborar essa ideia, algumas bem estranhas. Por exemplo: se alguém levanta dúvidas quanto ao caráter universalista do cristianismo argumentando que “não pode existir uma única religião”, é preciso admitir que tal afirmação por si só já é um ato de fé, porque ninguém pode provar que o cristianismo não deve ser a única religião para o mundo.

cristianismoEu poderia perguntá-lo, se pudesse, de qual cristianismo ele se refere, já que são tantos, mas voltemos à sua lógica estranha. Outro exemplo: alguns dizem: “não acredito no cristianismo porque não aceito a existência de uma moral absoluta. Cada um deveria estabelecer a verdade moral para si”. E como quem faz tal afirmação não seria capaz de comprová-la para quem não a compartilha, isso então não passaria de um leap of faith (salto de fé), ou seja, uma mera crença na noção de que “os direitos individuais funcionam não apenas na esfera política, como também na moral”. Não haveria como comprovar empiricamente essa crença, e portanto, a dúvida (sobre a moral absoluta) é um salto. Eu confesso que nunca vi ninguém aclamar uma “moral para si” que não seja inserida  num conjunto de valores toleráveis dentro de uma sociedade, mas esses são os exemplos que o autor escolheu.

Crenças justificadas

yetiEsse é um raciocínio bastante fundamentalista e equivocado. Primeiro, porque quem duvida de uma Crença A não necessariamente precisa ter uma Crença B, o que é muito óbvio. Muitas vezes o cético não faz nenhuma alegação nem propõe nenhuma definição ao duvidar, apenas questiona as alegações e definições de quem afirma alguma coisa. E segundo, ainda que exista a Crença B como contraponto à Crença A, se ela for justificada, ou seja, se a crença se apoiar em argumentos sólidos, teria mais valor e importância do que a primeira, se aquela não for. Isso quer dizer que as crenças não têm o mesmo peso e não são todas iguais. Acreditar que a Terra gira em torno do Sol não é a mesma coisa que acreditar no Pé Grande.

No primeiro exemplo que o autor cita, ou seja, que ninguém pode dizer que não deve existir uma única religião para todo mundo (a suposta “Crença B”), quem nos fornece uma justificativa bem plausível para isso é a Antropologia. O relativismo cultural há muito tempo nos ajudou a entender que não existe melhor ou pior civilização, nem melhor ou pior religião (embora peque quando levada a situações de extrema relativização). Cada religião é perfeitamente adequada para cada respectiva cultura ou povo, e não se expandiria a não ser através da persuasão ou das armas, como no caso da Colonização Espanhola da América. Uma coisa é ser capaz de dar essas justificativas, outra coisa, porém, é a capacidade do crente em aceitá-las...

Dessa forma, combater a Crença A injustificada com a Crença B justificada é perfeitamente legítimo, e se aplica em diversas outras situações.

Timothy Keller afirma no livro que pretende identificar cada crença oposta por trás das seis objeções e dúvidas a respeito do cristianismo, de modo que teremos ainda muito material para analisar aqui no blog.

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Tipos de crenças
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