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Raios N: como a vontade de ver nos faz ver o que não existe

milagre “Acredite, eu vi com meus próprios olhos!”; “Acredite, deus fala comigo!”. Quantas vezes não presenciamos as pessoas usarem a experiência pessoal para tentar nos convencer de alguma situação? Religiosos são os campeões deste artifício, mas no meio científico, acreditar demais nos sentidos pode arruinar sua credibilidade — ou sua carreira. Conheçam o caso do Doutor Blondlot e seus “raios N”.

Em diversos casos, é verdadeiramente legítimo recorrer à experiência pessoal para relatar alguma coisa. Por exemplo: “Ele engordou muito, eu sei porque eu o vi”; “Em Bangu tem um shopping, eu sei porque eu vim de lá”. No entanto, as pessoas gostam de extrapolar as experiências pessoais para situações tendenciosas, perigosas, duvidosas e ilusórias, levadas pela vontade de acreditar ou pela sugestão enganosa de outras pessoas. Mas também pelos próprios sentidos.

Os Raios N do Doutor Blondlot

O final do século XIX e início do século XX foi um período de grandes descobertas no campo da Física. Nesta época cientistas estavam descobrindo uma série de radiações, como os raios X e os raios catódicos, por exemplo.

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René Prosper Blondlot era professor e físico de grande reputação nessa época, quando em 1903 anunciou a descoberta dos “raios N”[1], assim batizados em homenagem ao nome da Universidade onde trabalhava, em Nancy. Segundo Blondlot, os raios N eram emitidos por certos metais e ele os podia ver a olho nu através de uma experiência com objetos envolvidos em papel alumínio, que “tornavam os raios mais luminosos”.

Provavelmente você deve estar pensando: “Como eu nunca ouvi falar desses raios N? 

Simplesmente porque eles nunca existiram... Vejamos o que aconteceu.

Outros físicos tentaram mas jamais conseguiram reproduzir os resultados da experiência do doutor Blondlot. Jamais viram nenhum raio emitido de metais, por mais que tentassem.

Foi um jovem norte-americano chamado Robert Wood que descobriu o engano do doutor Blondlot. Em visita ao laboratório do cientista, foi convidado a participar da sua experiência.

No seu laboratório, Blondlot tinha um dispositivo que supostamente emitia raios N em objetos metálicos, tornando-os mais brilhantes. Ele então analisava através da sua percepção o aumento ou diminuição de luminosidade, constatando, a partir dessa observação, a presença ou a ausência de raios N. Uma folha de chumbo podia ser inserida no dispositivo, e segundo o doutor, bloqueava a emissão dos raios. Blondlot confia ao norte-americano a tarefa de inserir ou retirar a folha de chumbo no dispositivo. A partir daí, já dá pra imaginar o que aconteceu...

Quando Robert Wood diz que a folha de chumbo está presente, bloqueando os raios N, Blondlot não os vê. Mesmo quando Wood mente e a folha não está! O norte-americano diz que a folha não está quando ela está, e vice-versa, descobrindo que Blondlot afirma que observa os raios ou diz não vê-los quando acredita que eles estão ou não visíveis!

Esse episódio foi publicado pelo norte-americano na revista Nature em setembro de 1904 e marca o fim da carreira brilhante do doutor Blondlot e dos seus raios N, e nos mostra o quanto a vontade de ver alguma coisa pode enganar nossa percepção da realidade. Por isso ninguém leva a sério pessoas que alegam ver coisas sobrenaturais, vozes dos Céus, almas penadas, etc. se essas pessoas não são capazes de provar ou se ninguém mais os vê. Tudo isso não passa de ilusão provocada por uma imensa vontade de acreditar ou por falta de senso crítico. Nossos sentidos são capazes de nos aplicar belos truques.

 


[1] BAILLARGEON, Normand. Pensamento Crítico. Um curso completo de autodefesa intelectual. Rio de Janeiro: Ed. Elsevier, 2007

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